revista n.7

Projeto “A grande mãe”

Por Cacá Fontana

Sempre me senti uma impostora nos ambientes profissionais por onde passei. Já estive no limiar de uma carreira bem interessante como advogada dentro de grandes empresas. Foram dez anos de advocacia, alguns diplomas em boas escolas (USP, Corte Internacional de Justiça e Harvard) e uma grande descoberta que mudaria tudo…

Há uns 10 anos, consegui duas proezas ao mesmo tempo: uma vaga como advogada júnior em um grande escritório internacional e uma gravidez não planejada.  Minha chefe da época me disse: “Você sabe que uma coisa exclui a outra, não é mesmo?” Eu, ingenuamente, perguntei: “Como assim? Se eu tiver um filho todos meus méritos e diplomas não contam mais?”. Ela respondeu “Somos seis mulheres nesta equipe, nenhuma é casada e nenhuma tem filho. É uma escolha. Para estar aqui você não pode ter o filho.”

Pronto, era preciso tomar uma decisão. E foi em 2009, aos 23 anos, que percebi que para estar ali eu não poderia exercer minha feminilidade. Desde então, comecei a estudar o tema com profundo interesse. Escrevi alguns artigos sobre “glass ceiling” para a Revista da USP, briguei, reclamei, fiquei triste e compreendi que era preciso fazer algo sobre o assunto. Era preciso pensar mais e passar a História do feminino a limpo.

Passando a História do Feminino a limpo

Quando cresci, na década de 80, aos poucos percebi que era uma menina e que devia me comportar diferente dos meninos. Recebi instruções católicas sobre o que não falar, como não ser vulgar, também me ensinaram a estudar, a ganhar meu dinheiro e ser independente.

Mas ninguém nunca me falou sobre o universo oculto da feminilidade. Não fui iniciada nos códigos da feminilidade e muito provavelmente nenhuma das mulheres da minha família tenha sido. Penso na minha tataravó “Inocência”, que se casou aos 12 anos com um homem muito mais velho, teve 21 filhos e amargou o pior castigo de todos: a falta de liberdade. Ela foi escrava do meu tataravô até o fim de sua vida.

E vou mais longe… não existe liberdade na inocência. Pobre Inocência, que pelo menos nos sirva de exemplo, pois a ignorância custa muito caro.

E sob uma ótica evolucionária, os cem anos que separam minha tataravó de mim não significam nada. Ainda assim, em cem anos ganhamos o direito de votar, de estudar e de trabalhar. Melhorou bastante, mas o que ainda precisa melhorar? É preciso inserir o “feminino” dentro das culturas corporativas. E isso é um trabalho de base.

Um sistema deformado

Ainda neste ano fiz uma reunião com um grande empresário paulista, tínhamos que discutir uma proposta de parceria e nos encontramos no escritório dele, às 11 horas da manhã de uma segunda-feira. Em cinco minutos de reunião, este senhor sentiu-se à vontade para tentar me beijar, apalpar e sugerir que eu deveria “ajuda-lo a me ajudar.”

Alguém consegue imaginar como um homem (em 2017) é capaz de “atacar” uma mulher advogada e à frente de uma revista? O que faz com que este senhor não tenha nenhum medo de ser punido? É a confiança de que absolutamente nada lhe acontecerá. Eu poderia tê-lo denunciado, processado, gerar uma stress violento para minha família, mas eu sei como isso acaba. E garanto que nunca acaba bem.

Ao contar este fato para alguns conhecidos fui acusada de “ingênua”. Lembrei-me da vovó Inocência de novo e decidi fazer diferente. Eu pensei como poderia atacar essa cultura de outro jeito. Era preciso falar da base que deformou nosso sistema. Na base que transformou nossos homens em “lobos vorazes que devem atacar” e nossas mulheres em “fêmeas que precisam se proteger”. Essa deformação faz com que homens ganhem mais tranquilidade e mulheres percam mais tempo se defendendo e tentando se proteger de ataques sorrateiros como estes.

Só conseguiremos corrigir esta deformação quando homens e mulheres trabalharem de forma complementar e consciente dos códigos que regem cada sexo. Lembrando que sexo não se confunde com gênero. Gênero é uma invenção social, sexo é uma característica orgânica, intrínseca e natural.

Como  distinguir o feminino do masculino?

Todo aquele que desconhecer os códigos da feminilidade e da masculinidade é também escravo. Se queremos uma sociedade livre, feliz e harmônica, comecemos compreendendo bem o sexo, seus segredos e os códigos que os regem.

Para explicar minha teoria sobre o feminino e o masculino lançarei mão de uma metáfora: pensemos o masculino como o “sol” e o feminino como a “lua”.

O sol é sempre igual, brilha forte, alimenta as plantas, lança luz sobre tudo e todos, fazendo saltar as diferenças e as imperfeições. Mas como seria a vida se apenas existisse o sol? Estaríamos todos cansados, com aquela sensação de trabalhar de sol a sol e nunca ter o descanso necessário e suficiente. Vivemos numa sociedade regida pelos códigos de masculinidade e isso explica porque as pessoas andam tão exaustas incapazes de relaxar, descansar e desligar.

Já a lua nunca está igual. Todo dia há uma nova lua e às vezes ela some. Parece até que brinca com a gente. Não é fácil entender a lua, mas é preciso observá-la o tempo todo. A lua requer um olhar profundo e sob o luar tudo parece igual, as imperfeições desaparecem, há acolhimento, descanso e seres frágeis (como vagalumes) podem brilhar e mostrar ao mundo seus talentos. Barbaridades também acontecem na escuridão, já que todos os gatos são pardos a noite. Algumas sociedades (no passado) já se pautaram nos códigos da feminilidade, eram sociedades mais calmas e muito conectadas com o ciclo da natureza. Talvez tenham sido um pouco obscuras e assustadoras em algum ponto…

Meu ponto aqui é que qualquer sociedade que escolha um dos dois lados será doente. Sol e Lua precisam coexistir para que possamos encontrar o ponto de equilíbrio. Outra coisa importante: não podemos exigir que o Sol imite a Lua e vice-versa. Cada qual tem seu papel e ambos precisam de espaço e respeito para existir.

Inserindo o feminino na sociedade contemporânea

Quando comecei minha vida profissional como advogada, recebi um “código de vestimenta” do meu primeiro emprego. Era proibido usar roupas coloridas, seda, decotes, transparências, esmaltes chocantes, saias, vestidos e também era proibido manifestar alegria no ambiente de trabalho. Eu usava terno preto todos os dias e aos poucos fui me petrificando até que a maternidade bateu na minha porta e fui convidada a descobrir o que era ser uma fêmea…

Minha versão fêmea só pode surgir com minha primeira gravidez, ali eu entendi o mistério de gerar uma vida, de carregá-la, de alimentá-la. Comecei a olhar os animais com mais respeito e, finalmente, percebi que também sou um animal e faço parte da natureza que me cerca. Esta foi a primeira vez que olhei com atenção a lua.

De 2008 (data da minha primeira gravidez) até hoje, dediquei boa parte do meu tempo estudando o feminino que havia em mim. Experimentei cores, textos, poemas, gerei vidas, curei feridas, anoiteci, desapareci, ressurgi radiante e imensa, fiquei leve, encantei e o mais interessante ASSUSTEI muita gente.

A cada nova foto ou versão sempre recebo um comentário do tipo “doidinha você!”. Outro dia mesmo cheguei numa reunião e uma das moças perguntou a sua amiga (que estava do meu lado) “essa não é aquela moça doidinha da revista?”. Também já recebi um e-mail de um senhor gaúcho dizendo que achou a Pense Mais totalmente “esquizofrênica”. Todas essas pessoas compartilham uma mesma ignorância: desconhecem em gênero, número e grau as nuances do feminino.

Muitos se frustram ao esperar um comportamento masculino (SOL) da Pense Mais e se chocam percebendo que aqui a banda toca de outro jeito. Refleti bastante e percebi que desde que comecei a experimentar a feminilidade passei a ser acusada de “louca”. Expandi meu olhar ao meu redor e prestei bastante atenção nas “loucas” que me cercavam.

Por que o feminino é confundido com loucura?

Lancei para mim a seguinte pergunta: “Que tipo de mulher é acusada de louca?” Pensem um pouco antes de responder…

Conclui que dois tipos de mulheres são acusadas de malucas:

1) Esporádica: aquela que não compreende a feminilidade, mas sabe que ALGO está errado. Por não entender seu próprio ciclo e universo, ela passa por crises terríveis de isolamento, tristeza e infelicidade. Sente que não está cumprindo seu papel, mas não entende o que está errado, afinal ela cumpriu com todas as expectativas sociais que esperavam dela. Essa mulher disfarça boa parte do tempo, e somente em seu circuito mais íntimo e familiar é acusada de “louca”;

2) Tempo integral: aquela que compreende bem seus ciclos, sabe o que a deixa feliz e ousa mostrar ao mundo sua feminilidade. Ela não tem mais medo de brincar com suas fases e faces. Ela já percebeu que às vezes precisa sumir e ficar em paz para poder apoiar e amparar aqueles que estão ao seu redor. São mulheres realizadas e acolhedoras e promovem imensas mudanças por onde passam. Essas são chamadas de “loucas” o tempo todo e de modo generalizado.

Resumo da ópera: não existe uma terceira opção,  certo? Logo, todas as mulheres em algum momento de suas vidas serão acusadas de malucas enquanto a sociedade esperar que elas se pautem nos códigos masculino de existência.

Saberemos que os códigos de feminilidade estão sendo respeitados e compreendidos quando as pessoas deixarem de nos apelidar de “loucas”.

A Missão da Revista Pense Mais

Desde de 2015, quando fundei a revista pense mais, ouço pessoas dizendo que é uma revista destinada ao público feminino. Só que nunca concordei com isso. Temos muitos leitores e colaboradores homens e não gostaria de perdê-los.

Eis que finalmente percebi que esta revista não se destina ao público feminino, mas usa os códigos de feminilidade. Fazemos pontes, oferecemos espaço para que pequenos vagalumes brilhem delicadamente a cada edição, cultuamos a alegria, a dança, o amor e todos os movimentos que permitam o relaxamento, a leveza e a conexão profunda com nossa intuição.

É… a Revista Pense Mais usa todos os códigos de feminilidade e graças a esta súbita consciência criamos um novo projeto chamado “A grande mãe”. Na verdade não é um projeto sobre maternidade, mas uma forma de olhar a revista como uma grande mãe, capaz de unir pessoas absolutamente diferentes e permitir que dancem e brinquem juntas na luz do luar.

O Projeto “A Grande Mãe”

Estamos começando o projeto ” A grande mãe” em 2017 e nosso piloto conta com 15 mulheres. São mulheres entre 11 e 60 anos, todas dispostas a expandir sua feminilidade. Nosso primeiro exercício foi criar um círculo de doação e recebimento.

A regra era a seguinte: você doa 40 minutos da sua vida a um estranho e recebe outros 40 minutos de alguém. O desafio nessa fase era escolher um assunto que você pudesse falar e orientar alguém e um assunto que você gostaria de ser orientada. Todas sabiam na ponta da língua o que queriam doar e todas levaram dias para descobrir o que queriam receber. Muitas se recusaram a receber a doação alegando que não era preciso. Mas a regra era clara e elas tinham que pedir algo…

Neste piloto já experimentamos assuntos como autismo, profissão, escrita, depressão, aborto e tantas outras coisas. Explorar o feminino, de um jeito feminino tem sido algo inédito para mim e tão forte e gratificante que mal posso esperar para apresentar a todos os resultados desse grupo.