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Samba: eterno delírio do compositor

Como já bem dizia Dorival Caymmi “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé”. Se perguntar a um estrangeiro sobre o que ele conhece do Brasil, é muito provável que suas principais respostas sejam futebol, mulheres bonitas, carnaval e samba. O Brasil, mais precisamente o Rio de Janeiro, é o berço do samba. Esse ritmo é uma expressão cultural legitimamente brasileira e que no último dia 27 de novembro completou 100 anos de história. Mas o dia do samba é celebrado no dia 2 de dezembro.

A data foi escolhida como uma homenagem a um dos mestres do samba Ary Barroso. Ary, sempre apaixonado pela Bahia, compôs Na Baixa do Sapateiro. A música foi adotada pelo povo da “terra de todos os santos” como uma canção que os representava. Com isso, o vereador Luís Monteiro Costa resolveu homenageá-lo colocando a data de sua primeira visita a Salvador – dia 2 de dezembro – como o Dia do Samba. A festividade seria comemorada apenas na Bahia, mas como o samba não conhece limites, a comemoração ultrapassou as barreiras e se tornou nacional. “É bonito de se ver o samba correr pro lado de lá. Fronteira não há, pra nos impedir.” – Fundo de Quintal

Apesar de hoje ser muito popular, o início do samba não foi tão simples e fácil. Nascido no Rio de Janeiro no final do século XIX, ele surgiu da mistura dos tambores dos escravos com os ritmos regionais, como o maxixe e o xote. Por conta de sua origem relacionada aos negros, durante longos anos, foi visto como marginal, assim como seus praticantes. Foram anos de dedicação ao ritmo até que ele fosse reconhecido como símbolo cultural do nosso país.

Desde sua origem, até os dias de hoje, é comum ver letras de samba que cantem as belezas do morro. Ele nasceu lá e faz questão de exaltar o local de onde veio. As pessoas, o modo de vida e também os preconceitos que rodeiam esse lugar, são também temas abordados nas rodas de samba. Uma das maiores belezas desse ritmo está em se renovar, mudar, misturar-se, mas sem jamais perder a essência.  “Queimaram as folhas, as flores e os galhos, mas a raiz ninguém consegue queimar. E vem a noite, vem junto o sereno e o samba começa de novo a brotar”, Nei Silva.

Existem muitas vertentes do samba e cada uma delas, apesar de suas diferenças, exaltam a essência do samba. Existe o samba de roda, partido alto, pagode, samba de gafieira, samba rock e samba enredo. O último é um dos mais fáceis de explicar, já que ele é a estrela principal do carnaval. São os sambas compostos para os desfiles de escolas de samba. Já o samba rock é uma mistura do samba como o rockabilly. Muito dançante, o ritmo dominava os bailes dos anos 60 e 70 e tem retornado com força.

A gafieira é uma dança de salão, a principal diferença está na hora de dançar e não no ritmo propriamente dito. Sua maior característica é a malandragem e a ginga, com terno, sapato de bico, chapéu e muito charme. Já pagode era o nome dado para as festas que aconteciam nas senzalas, que depois foi transferido para as casas de samba e, por fim, para os grupos que não tocavam o samba de raiz e sim o que os mais antigos chamam de pagonejo – como Thiaguinho, Sorriso Maroto, Jeito Moleque e etc.

Partido Alto é um dos subgêneros mais legais do samba. Ele é uma apresentação de improviso, onde dois ou mais cantores versam rimas por cima do ritmo marcado na roda. E chegamos, finalmente, ao samba de roda. Acredita-se que essa seja a primeira forma do samba.  Essa variação possui relação direta com o jogo de capoeira, de onde veio o nome de roda. Só é importante não confundir o samba de roda com a roda de samba. No primeiro os participantes se revezam entre dança, instrumentos e vocal, na segunda, o grupo apenas se apresenta em forma de círculo.

Falando nos grandes sambas de roda, é muito comum ver sambistas renomados reunidos dessa forma, compartilhando suas canções. Os grandes nomes do samba são conhecidos como “Bambas” e não é nada fácil ganhar esse apelido carinhoso. Pra ser um bamba é preciso muito mais do que cantar samba, é preciso ser honesto, ter coragem e viver o samba. Como expressou tão bem Jorge Aragão em sua música Moleque Atrevido. “Ganhei minha fama de bamba num samba de roda. Fico feliz em saber o que fiz pela música, faça o favor. Respeite quem pode chegar onde a gente chegou […]E a gente chegou muito bem, sem desmerecer a ninguém. Enfrentando no peito um certo preconceito e muito desdém”.

Mas quem são os bambas do Brasil? Para responder essa questão, convidamos dois artistas que são grandes representantes do ritmo, Mara Rubia e Nei Silva – os dois trabalharam durante anos no elenco do Obaoba de Osvaldo Sargentelli. Perguntamos a eles quais eram os principais nomes do samba, Mara e Nei responderam Cartola, Nelson do Cavaquinho, João Nogueira, Ivone Lara e Adoniran Barbosa. Lembrando que Ivone Lara começou no samba em uma época em que apenas homens eram permitidos, ela foi a primeira mulher a fazer parte da Ala dos Compositores em uma escola de samba. Sua trajetória a transformou na Rainha do Samba e todos a reverenciam  e a chamam de Dona Ivone Lara.

E como não poderia faltar, pedimos para que escolhessem músicas que pudessem contar um pouco da história do samba, a final, são 100 anos de belíssimas canções. Montamos uma playlist em ordem cronológica. Anote essas canções, escute e descubra o passar dos anos ouvindo o choro da cuíca e gingado do pandeiro.

Palpite Infeliz – Noel Rosa (1935)

Saudosa Maloca – Adoniram Barbosa (1951)

Trem das onze – Adoniran Barbosa (1964)

As Rosas Não Falam – Cartola (1973)

Sonho Meu – Ivone Lara (1981)

Mineira – João Nogueira (1992)

Espelho – João Nogueira (1992)

Samba é meu dom – Wilson das Neves (1996)

Na Aba – Martinho da Vila (1998)

Suplica – João Nogueira (2000)

Se você ainda não sabe como irá comemorar a data, aqui vão algumas dicas. Na Brigadeiro Faria de Lima fica localizado o bar Na Aba, dos nossos entrevistados Mara Rubia e Nei Silva. Haverá feijoada e muito samba nessa sexta-feira para comemorar. Se preferir o sábado, a dica é o 3º Festival de Futebol Pegada do Macaco. O festival é uma realização da Escola de Samba Vai-Vai e conta com um campeonato de futebol entre as escolas e uma incrível roda de samba. Será na Avenida Nicholas Boer a partir das 11h. Não importa como, mas celebre. O samba é a nossa raiz. Você não é obrigado a gostar, mas tem que respeitar. Você não samba, mas tem que aplaudir.