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Carta de uma editora que gosta de juntar retalhos…

Desde pequena sou fascinada pelo passado. Sei das histórias dos meus avós, bisavós e até tataravós de cor e salteado.  Adorava ouvi-las quando criança. Também amo fotos antigas, trato de fazer quadros e mais quadros. Gosto de casa com história. Adoro entrar na casa de alguém e encontrar quadros com recortes de jornal, fotos antigas que mostrem gostos, jeito, vida etc.

Minha mãe sempre dizia que eu tinha que viver no presente e não remoer o passado. Acho que não se trata de remoer o passado, mas sim de passar a limpo o que passou. Além do que, existe um tipo de passado que constitui um verdadeiro patrimônio familiar. Conhecer as origens é mais que simplesmente recordar nostalgicamente o que passou. Este é o passado que é preciso conhecer.

Não tocamos este passado, nem o vivenciamos, porém é fato que este tipo de passado vive em nós. Somos o fruto destas pessoas, e cada história trazida por elas nos direcionaram a ser quem somos e estar onde estamos. É, no mínimo, fascinante. Óbvio que bate uma nostalgia de vez em quando. Engraçado que toda vez que me lembro do meu avô e tia avó começo a sorrir. Sem perceber estou sorrindo de olhos fechados. Dai bate aquela saudade doce que sacode o coração. Constato que amo tanta coisa que mesmo não existindo mais, não está perdida, pois vive dentro de mim.

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Bate um flashback do colo dos meus avós. Aquele leite quente antes de dormir. A frutinha cortada, o mamão com açúcar, tudo tão acolhedor. Saudade daquilo que mesmo não existindo mais, ainda é capaz de arrancar um sorriso. Como esquecer tudo isso? Não dá! Tanto as memórias felizes como as tristes me percorrem diariamente. É preciso aceitar esse amor e tristeza que vivem em mim, como dizia Drumond: “as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão”. Pois é a beleza destes sentimentos que segue pulsante aqui.

Esta beleza a qual me refiro é a beleza da verdade. Os verdadeiros sentimentos vividos são findos e, portanto, eternos. Ainda que meu avô, pai ou tia tão queridos estejam já perdidos e sequer existam mais neste mundo terreno, as memórias deles serão eternas e sempre minhas. Espero poder me lembrar com carinho destas pessoas e de quem eu era naquele tempo e o que significou conviver com cada um deles e atravessar distintas etapas juntos.

Ao deixar de existir nos incorporamos a outras pessoas que nos mantem vivos em suas memórias. Acho que escrever é mágico justamente por isso. Já imaginou ler um livro escrito por seu avô? Acompanhar suas desilusões, amores, seus sentimentos ou ainda aprender de suas vivências?  Deve ser fantástico. A chama da memória de um ser amado segue viva dentro da gente e é ai que reside a verdadeira imortalidade.

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Eu não sou mais a mesma que era aos cinco anos, quando grudava em meu avô. Não sou mais aquela menina de dez anos que ouvia as histórias da vida da minha avó e também não sou mais aquela  jovem de 20 anos. Mas com toda certeza sou o resultado da somatória de todas estas meninas, com tudo que elas ganharam e perderam junto aos coautores e personagens deste livro riquíssimo chamado: VIDA!

Muitos me dizem para esquecer, deixar partir, mas eu não posso, pois não se trata de viver apegada, mas sim de viver amparada. Amparada por minhas memórias. Acolher minha história passa por fazer as pazes com todas estas vivências ou mesmo a falta delas em alguns casos. É preciso resgatar o vivido e  reverenciar o sucesso contido em cada uma destas relações.

Talvez por isso que eu tenha me interessado pelo scrap, pela revista, pelo patchwork. Gosto de juntar retalhos, pois acho que nenhuma história é em vão. Óbvio que alguns retalhos são mais bonitos que outros, mas nenhum foi em vão. Lembranças de lugares, pessoas, cheiros, sons,  sentimentos escancarados como feridas expostas, todos pequenos retalhos nossos de cada dia.

A memória contida na minha alma me identifica. Só quem tem passado tem futuro. E é por isso que gosto de abraçar meu passado, segurá-lo em meu colo, como um bebê lindo e gracioso. Meu passado, minhas lembranças são sem dúvidas, uma das partes em mim que mais amo e aprecio. E para falar a verdade não existe nada mais libertador que se acolher e fazer as pazes com o passado. Sinto que assim tenho passe livre para colher as vivência futuras que me esperam.

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(Texto escrito por Cacá Fontana, editora da Revista Pense + e fotos de Lucylla Alexandre)