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Não temos tempo a perder

Sexta feira é dia de música, mas dessa vez ela não será uma música nova. Hoje utilizaremos a música como um meio de análise. Uma música que foi composta há alguns anos, mas que continua sendo muito recente em seu contexto. Confira.

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“Ele queria era falar com o presidente pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer.” Quantas vezes você já se pegou cantando esses versos de Renato Russo e sentiu que ele havia escrito aquelas frases ontem? Como é triste saber que após 28 anos dessas palavras terem sido escritas, a vida difícil de João do Santo Cristo ainda existe. Crianças crescendo à margem da sociedade, sofrendo “discriminação por causa da sua classe, sua cor” e com muitos primos “Pablo” e sem vergonhas como “Jeremias” por perto.

Os personagens citados acima são fictícios e fazem parte da composição “Faroeste Caboclo”, do grupo de rock Legião Urbana, dos anos 1980. Porém, se analisarmos a letra podemos perceber quantas histórias semelhantes à de João vemos até hoje. Olhe ao redor, veja quantas pessoas passam por necessidades e quantas estão se perdendo no mundo das drogas por falta de estrutura. As comunidades periféricas são comandadas, muitas vezes, por traficantes e não há outra opção aos jovens a não ser trabalhar para eles. Há um muro invisível que separa a realidade de uma criança do Morro do Querosene e uma que cresce ao lado do Parque do Ibirapuera.

“E Santo Cristo até a morte trabalhava, mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar. E ouvia às sete horas o noticiário que sempre dizia que seu ministro ia ajudar, mas ele não queria mais conversa e decidiu que como Pablo ele iria se virar.” Pablo representa a facilidade que o mundo do tráfico traz, enquanto Santo Cristo é o trabalhador que levanta às seis da manhã, passa o dia com uma alimentação e mesmo assim não consegue evolução na qualidade de vida.

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O que ocorre na vida do protagonista da música é o que acontece com muitos. Eles se cansam de ouvir promessas trazidas pela mídia, palavras que nunca serão cumpridas e tentam se virar da sua forma. Sem falar que o que a mídia transmite, para eles, não os representa. Na música se ouve “ele queria sair para ver o mar e as coisas que ele via na televisão”, mas essa realidade não pertencia a um garoto cujos pais mal conseguem alimentá-lo, isso quando eles existem.

A periferia só aparece nos principais meios de informação quando ocorre uma grande tragédia ou em festas como o carnaval. Talvez a mídia passe essa pseudo-felicidade com o intuito de convencê-los de que aquela é a realidade na qual eles estão inseridos. Ou porque é mais fácil ignorar as deficiências do sistema político com essa faixa da população, que não tem força ou voz, do que mostrar que o governo é falho e com isso se prejudicar. Seja qual for o motivo, os meios de comunicação de massa, infelizmente, não atendem esse público, nem prestam serviços a eles.

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No dia 11 de outubro deste ano a morte de Renato Russo – o compositor dessa letra – completará 19 anos, mas mesmo com todo esse tempo pra mudanças, nada mudou. Mais uma vez, ele mostrou que já sabia qual seria o futuro da população brasileira quando disse “mudaram as estações, nada mudou”.