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Eu tenho um Brasil guardado em algum lugar!

Por Audelina Macieira

Eu tenho um Brasil guardado em algum lugar! Eu tenho um Brasil guardado no bolso de minha camisa ele está dobrado, manchado e amarrotado com índios nos quintais, negros nos varais e brancos nas calçadas pedindo esmolas o resto é tudo mestiço, misturados nesse céu de azul anil. No meu Brasil tem carteira de identidade, cartão do banco, vale transporte, bandidos noturnos, políticos corruptos e televisão.

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O canto do Uirapurú, as praias de Itamaracá o choro das crianças nos sinais, mas o sinal está fechado. Tem grupos de extermínio no meu Brasil e rappers andam armados ao som do hip hop e balas de festim. Não existe mais missa aos domingos, nem ternos de reis, nem novena trocamos tudo pela novela. Prostituímos o samba de roda, vendemos nossos carnavais aos gringos e penduramos a conta na padaria do portuga.

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Vendemos nosso ouro, nossas matas e hipotecamos nosso povo. Ontem eu sonhei com o Salvador da Pátria. Com D. Pedro e Don Sebastião, não lembro o que eles diziam, mas era bonito o discurso. Entro no ônibus lotado de Cerrado, Caatinga, Pantanal e Hileia Equatorial e outras Verdades que eu esqueci na Escola. Duas horas depois estou em casa. É imenso o meu Brasil, mas falta asfaltar, tem dias que falta água, a luz é gato, político só vem aqui em época de eleição.

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Paro para beber uma cachacinha no bar da esquina pra desestressar. “Não temos cultura, mas temos cerveja gelada” diz o dono do bar. “Derrama no copo” digo cansado… Zé Pereira me diz que carregou o Brasil nas costas o dia todo pra por um salário mínimo no fim do mês que nunca aumenta de verdade. Isso me lembra que guardei o meu Brasil no bolso da calça, ou foi no bolso da camisa? Não está mais na meia… Onde eu deixei o meu Brasil? Acho que eu o perdi (ou fui roubado) no caminho para casa. Ai meu Deus! e agora o que eu digo lá em casa?

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 Extraído do livro Letras Contemporâneas, Ed. OMNIRA, 2012