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O Brasil precisa de atenção!

Marcello Airoldi é um artista completo, intenso e muito bem formado. É ator, diretor e autor, nascido em Barueri (SP), possuindo um currículo com obras e atuações de respeito. Já participou de novelas importantes como “Belíssima”, “Viver a Vida”, “Malhação” e foi premiado (pelo Arte Qualidade Brasil) como melhor ator da temporada em São Paulo por sua interpretar Philippe, na peça “Intocáveis”. Ele também está no grande elenco de “Amor em Sampa”, filme recém estreado por Bruna Lombardi. Nosso primeiro encontro se deu na Serra da Cantareira, por acaso! Conversa vai, conversa vem… fica fácil perceber que ele tem muita coisa importante a dizer para o Brasil. Marcello Airoldi foi nosso perfil homenageado da última revista e separamos alguns trechos da nossa conversa para compartilhar aqui. É, no mínimo, um convite à reflexão!

1.É possível dialogar através das redes sociais?

R.: São poucos os debates importantes que vejo acontecer nas redes sociais. Um assunto banal tem milhares de curtidas e comentários, enquanto um tema importante “passa batido”. Também é preciso observar os autores do post, quem são, o que fazem. As guerras diárias de opiniões virtuais não são diálogos. Diálogos aproximam pessoas, e as redes têm sido antissociais. Sem generalizar.

2.Esse diálogo poderia se dar pela arte?

R.: A arte provoca a vida. Todo mundo adora viajar para países que têm uma cultura marcante, mas às vezes, a nossa cultura gera “preguiça”. Santo de casa não faz milagre. A arte é fundamental para a saúde de uma nação. Ela estimula novos olhares sobre o mesmo assunto, amplia a capacidade de reflexão. Uma sociedade que não percebe a importância da arte está condenada ao fracasso.

3. O que mais te assusta na sociedade brasileira?

R.: É a desvalorização da cultura, o preconceito e a intolerância. Vivemos o fenômeno da banalização. Os assuntos que demandam reflexão são desprezados e substituídos por tolices, por passatempos inúteis.

4. Qual o pior problema que enfrentamos enquanto sociedade?

R.: Em geral os preconceitos, que nascem da ignorância. Quando não entendemos o contexto de determinada situação tendemos a nos defender dela. Natural. Mas é necessário ir além, conhecer um pouco daquilo que se teme. Caso contrário, não nos livraremos dessa doença chamada intolerância, da incapacidade de convívio com o diverso. Respeitar as diferenças é condição para uma sociedade melhor.

miguel

5. E a “crise”?

R.: A nossa crise é humana. Há uma crise mais grave que a política ou a econômica. O Brasil atravessa uma crise humana, fruto de um sistema educacional falido e de um potencial cultural desprezado. Só é possível haver um debate justo sobre a sociedade e seus caminhos, se os lados tiverem força compatível. O desequilíbrio ainda é assustador.

6. Um sonho para o Brasil?

R.: Um país com mais igualdade social, onde os direitos sejam respeitados e que exista, de fato, uma melhor distribuição de renda e conhecimento. A distância que assusta entre as pessoas, é a do conhecimento, da cultura. Essa faz parecer que o ser humano é divido por categorias.

7. Uma mensagem aos leitores…

R.: A crise está aí e pede coragem. O ser humano precisa melhorar o tempo todo e isso apenas acontece quando ele se observa. O melhor espelho que conheço é a literatura, o cinema, o teatro e a História. As mudanças ficam mais sólidas com as referências anteriores. Nós não damos muita importância à memória, infelizmente. Por exemplo: preferimos derrubar prédios antigos (às vezes tombados pelo patrimônio histórico) para construir novos. Isso não é renovação, é retrocesso. Significa começar tudo de novo, apagar as bases. Esse conceito, em geral privilegia a poucos. Assusta ver alguns grupos clamando pela volta da ditadura, por exemplo. Ainda bem que eles não tem muita força. É difícil entender como alguém ainda acredita que o tipo de “ordem” imposto naquele período seja compatível ao pensamento democrático. Há um despreparo pairando no ar do Brasil, um exercício equivocado do poder, uma incapacidade de lidar com o outro sem ofendê-lo ou sem tirar vantagem sobre ele. O Brasil precisa de atenção!

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Fotos de Priscila Prade e João Caldas.