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A menina descalça que vendia flores

Por Marcos Daniel Cézari

Ele abriu a porta da sala que dava para a sacada da casa. Era uma daquelas portas de correr, de madeira, com pequenos vidros claros. Uma leve brisa tomou conta do ambiente – uma mistura do calor do verão que começara havia três dias com a umidade da fina chuva que caía no início daquela noite, véspera de Natal.

Na sacada da casa havia duas cadeiras de vime, ambas com almofadas. Sentou-se em uma delas e apoiou os pés na grade que separava a sacada da parte inferior da casa, um espaço para lazer, com salão, churrasqueira e um pequeno jardim com algumas palmeiras em cujos troncos havia diversas orquídeas amarradas.

Olhou para as plantas, que cuidava com carinho, e para os inúmeros prédios ao longe. Muitos já tinham as luzes acesas, apesar de, devido ao horário de verão, o sol ainda brilhar no horizonte. Estava ali, sozinho, enquanto aguardava sua mulher e as duas filhas se arrumarem para a ceia de Natal. Além deles, viriam mais alguns familiares.

Enquanto aguardava, fechou os olhos e começou a pensar em outros Natais, em como estava feliz: tinha a família que sempre sonhara – a mulher que sempre amou, as filhas já adultas, formadas –, amigos, irmãos, o trabalho que fazia com amor e dedicação… Não era um homem rico, mas não tinha do que se queixar. Como aprendera com a vida, tinha mais a agradecer do que a pedir.

Ficou ali, sentado, olhos fechados, envolto pela brisa do início da noite. Apoiou a cabeça no encosto da cadeira e… voltou no tempo, uns 40 anos antes, quando ainda era jovem e solteiro. Nessa viagem, lembrou de uma noite em que uma fina garoa – como a daquela noite – caía sobre a cidade.

Eram tempos diferentes – menos carros, menos trânsito, menos violência. Ao volante do carro, parado no farol, viu aproximar-se uma garota de uns 8 ou 9 anos, vendendo flores.

Era um sábado à noite, faltando alguns dias para o Natal. Baixou o vidro da porta do carro para ouvi-la. “Quer comprar flores, moço.” Ela segurava algumas rosas, envoltas em plástico, desses próprios para embalar flores.

Não tinha intenção de comprá-las, até porque não tinha a quem presentear. Poderia levá-las para casa, mas resolveu fazer diferente. Perguntou quando custavam. Abriu a carteira e entregou para a menina algo como a metade do que ela pedia pelo ramalhete.

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Antes que ela virasse as costas e fosse para a calçada, ele indagou: “Por que você está aqui, tomando chuva, em vez de estar em casa?” A resposta foi curta: “Preciso ajudar minha família”. Assim que ela voltou para a calçada, não pôde deixar de notar um detalhe: ela estava descalça.

O farol abriu e ele voltou a prestar atenção no trânsito. Antes de ir embora, com o vidro do carro ainda aberto, ouviu-a dizer: “Obrigado, moço; feliz Natal”.

Enquanto dirigia, ficava pensando como seria a vida daquela menina. Onde será que ela morava? Com quem morava? Será que estudava? Tinha perguntas, mas não as respostas.

Três dias depois, véspera de Natal, passou pelo mesmo local. Era início de uma bonita noite, agora sem chuva. Havia muitos carros pelas ruas, muita gente ainda voltando das compras de última hora.

Ali, de novo no mesmo farol, ela viu a mesma garotinha vendendo flores. Pensou em chamá-la para dar-lhe algum dinheiro, como fizera alguns dias antes. Mas havia algo de diferente nela. Ela estava mais alegre, mais feliz.

Foi então que notou a diferença: nos pés antes descalços, agora ela usava uma sandália. Simples, mas suficiente para proteger seus pés. Chamou-a até o carro, não para comprar flores, mas apenas para beijar-lhe e o rosto e retribuir o “feliz Natal” que ela lhe desejara dias antes.

Ela voltou para a calçada para continuar vendendo as flores, e ele foi embora, feliz e sorridente. Ia para casa, para cear com a família. Não sabia o que iria ganhar naquela noite, mas, mesmo que nada recebesse, aquela já era uma noite mais feliz.

De repente, uma mão tocou-lhe o ombro. Era uma das filhas, que perguntou: “Pai, o senhor estava sonhando”. Foi então que ele se deu conta de que talvez tivesse sonhado mesmo.

Marcos Daniel Cézari é jornalista, especialista em tributação e colaborador da Folha de São Paulo, escreveu este texto especialmente para a primeira edição da nossa revista. A foto é de Mariana Ruy Barbosa, que interpreta uma Florista na novela Totalmente Demais, da Rede Globo.