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O Reino das Vozes que não se Calam

Carolina Munhóz & Sophia Abrahão. O Reino das Vozes que não se Calam. Editora Fantástica – Rocco. Rio de Janeiro, 2014, 285 pp.

As vozes de Carolina e Sophia encontraram um caminho original e encantador para enfocar a questão do bullying. Muitos autores têm abordado essa questão, sempre tão delicada e muitas vezes trágica, porém raros conseguiram fugir dos clichês.

Aqui, mais uma vez a prática do preconceito é encenada no ambiente escolar, mas a partir deste cenário as autoras criam uma história inusitada, ao mesmo tempo real e imaginária, leve e perturbadora. Sophie, a protagonista, não se enquadra no perfil das garotas normalmente discriminadas; ela não está acima do peso nem apresenta um corpo disforme, mas é excluída pelos colegas, apesar de ser a melhor amiga de Anna, a garota mais popular do colégio.

sophia-abrahao-instagram-1-300x250e[1]O problema de Sophie é sua magreza extrema, que muitos, inclusive ela mesma, consideram excessiva. Além disso, seus cabelos ruivos a incomodam, talvez por atraírem a atenção de todos. A própria protagonista, apesar de se achar a excluída mais incluída da história dos rejeitados, vive se julgando, chegando, muitas vezes, a construir uma barreira em torno de si.

E o mais estranho e maluco é que o preconceito se estende até mesmo aos pais dos alunos e à diretora da escola, que atormentam a garota e seus pais por conta da aparência dela. Eles acreditam que ela é anoréxica e que, assim, seria um péssimo exemplo para os colegas.

No início, Sophie se apoiava nos pais, Laura e George. Ela invejava o corpo da mãe, admirada por todos, presidente do Clube das Mães, e se identificava mais com o pai, sempre solidário a sua dor. O único orgulho dela era sua voz; a garota cantava como ninguém, encantando quem a ouvia; porém, seu público era restrito: apenas os pais e Dior, seu cachorro. Não, Sophie não se interessava por moda. Seu animal de estimação foi batizado por sua amiga Anna, que também era seu ponto de apoio.

As duas eram companheiras fiéis desde a pré-escola, embora fossem seres de natureza oposta, não só fisicamente, mas em todos os sentidos. Como Anna era o centro das atenções e aparentemente tinha uma personalidade forte, obrigava seu grupo de amigos a tolerar Sophie, que se sentia péssima entre eles. Ela preferia se isolar, principalmente na biblioteca.

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Tudo se agrava quando, ao aceitar um convite de Anna para ir a uma festa do colégio, Sophie é humilhada diante de todos. A partir daí, a amizade entre elas se rompe e a garota, cansada de ser rejeitada, mergulha em um reino mágico, onde é amada por todos os seus habitantes, os Tirus, que a consideram sua princesa, sucessora do trono, até então ocupado por uma avó desconhecida. A partir desse momento, quando seu relacionamento com os pais também se deteriora, Sophie fica dividida entre permanecer na Terra ou assumir de vez sua condição mágica, ao lado dos seres que a amam incondicionalmente.

Mas nada é tão simples. Nesse universo surreal a pressão também se torna insuportável, pois ela é obrigada a vencer três etapas de uma jornada mítica, representada pelas cartas de um tarô: os Amantes, o Louco e a Morte, se desejar viver eternamente no Reino das Vozes que não se Calam.

Nesse meio tempo, Sophie conhece Léo, o único jovem que não teme se aproximar dela e que lhe desperta sentimentos antes ignorados. Apesar de ter o mesmo visual dela e gostos semelhantes, ele é imediatamente aceito pelos colegas, que tentam transformá-lo no garoto mais popular do colégio. Léo, porém, prefere a companhia de Sophie e de Mônica, outra excluída no meio estudantil.

No auge da pressão, que caminhos a protagonista escolherá? Mergulhará ainda mais fundo em suas emoções intensas e destrutivas? Será capaz de perdoar Anna? Dará uma oportunidade a Léo e à amizade de Mônica? Assumirá sua missão junto aos Tirus? Compreenderá seu papel no mundo? Sua vida se transformará em um conto de fadas ou em uma história de terror?

Essa trama, repleta de referências musicais e literárias, mobiliza nossas emoções mais profundas e nos conduz a momentos de profunda identificação. Quem nunca se sentiu como Sophie em alguma passagem da vida? Quem nunca se perdeu nas veredas da intolerância e das diferenças? Quem nunca julgou e humilhou ou se sentiu julgada e humilhada?

Esta é uma história imperdível, apesar de algumas imperfeições narrativas. Afinal, duas vozes aqui se uniram justamente para compor uma sinfonia sobre diferenças e ausência de perfeição. Vale a pena mergulhar nesses dois reinos que, no fim, são apenas estágios diversos de uma mesma jornada de amadurecimento.

Carolina Munhóz é jornalista e já publicou três livros, todos protagonizados por fadas. Nessa obra, ela dá uma guinada em sua carreira literária. A autora conquistou o Prêmio Jovem Brasileiro de 2011, como melhor escritora.

Sophia Abrahão é atriz, modelo e cantora. Já atuou em várias novelas nas TVs nacionais e no filme Confissões de Adolescente. Entre diversos prêmios, angariou o Capricho Awards como melhor atriz brasileira e melhor blog. Com esse livro ela estreia no universo da literatura.

ana lucia

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