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A matemática dos refugiados no Brasil

A essa altura do campeonato, todo mundo já conhece a situação dos refugiados sírios, um assunto triste e polêmico que vem preocupando o mundo inteiro. Três anos depois de fugir da Síria, na última quinta (08 de outubro), a refugiada Marah Khanis (23) topou receber nossa equipe em sua casa,  onde vive com seu marido, pais e irmãs para falar sobre a atual condição dos refugiados sírios no Brasil.

“O que nos deixa mais tristes é saber que nenhum dos países que faziam fronteira com a Síria aceitou nos abrigar. Alguns países europeus acolheram sírios, mas sob condições pontuais, impondo uma série de regras e limitações. O único país que aceitou e não pediu nada em troca, foi o Brasil”, explica Marah.  

Pelo que Marah nos contou, o único país que aceita conceder visto aos refugiados é o Brasil. Antes de embarcar, eles ainda tentaram se estabelecer no Egito e no Sudão, mas por conta de restrições na lei de imigração dos países, a família acabou dividida e para voltar a reunir todos os membros a única opção possível era o Brasil.

“Eu não sabia nada do Brasil, apenas sabia que tinha carnaval. Chegamos na agência de turismo e perguntamos qual país nos daria um visto. A única opção era o Brasil. Tomei um susto quando cheguei e descobri o tamanho deste país. Até hoje, assusto quando entro no supermercado EXTRA. Isso não existe na Síria”, conta Marah rindo.  

Marah cursava faculdade de farmácia, seu pai era um empresário do granito em Damasco (Síria) e ela e suas irmãs tinham uma situação financeira muito confortável. Ela nos contou que cada uma tinha seu carro. Quando perguntada sobre em que momento eles perceberam que teriam que fugir, ela respondeu:

 “Tínhamos uma casa confortável afastada do centro de Damasco e tivemos que alugar uma casa no centro para fugir dos constantes bombardeios. Meu pai tentava seguir seus negócios, mas a cada dia tudo ficava mais tenso. O dia decisivo foi quando um oficial do governo bateu em nossa porta dizendo que tinha gostado de uma de minhas irmãs. Isso era um sinal de que ela seria levada. Meu pai se desesperou e fomos embora naquela semana. Deixamos tudo em Damasco.”

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Nossa nova pátria

 Apesar da intensa batalha para fugir da Síria e manter a família unida e viva, Marah (que se casou no Brasil e está grávida de seu primeiro filho) afirma que ela e sua família estão bem no Brasil e não pretendem voltar à Damasco.

“O mais difícil para nós é aprender o idioma. Costuma levar um ano, mas depois disso a gente se vira e arruma emprego. Não tenho esperança de voltar para meu país. Talvez um dia, muito longe, eu volte. Mas a Síria está destruída. Meu bairro não existe mais, minha universidade foi bombardeada, meu amigos foram mortos ou fugiram. Não tenho nada para reencontrar lá. Nosso país é o Brasil agora!”

Os refugiados sírios escolheram o Brasil como nova pátria e chegam aos montes do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Em alguns casos, chegam apenas as mulheres e as crianças, pois o dinheiro não dá para comprar a passagem de todos.

“Minha mãe e minhas irmãs chegaram sozinhas no aeroporto de Guarulhos. Meu pai e eu estávamos no Egito, chegamos depois. Desembarcamos no aeroporto sem rumo, com pouco dinheiro e sem falar uma palavra de português.”

Assistência aos Refugiados

O Brasil é signatário dos principais tratados de direitos humanos e parte da Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados. Não se pode confundir “refugiado” com “migrante”. Os migrantes escolhem mudar de país em busca de melhores oportunidades de trabalho e educação, mas podem voltar ao seu país de origem a qualquer momento e continuam recebendo proteção do seu governo.

Os refugiados, por outro lado, não podem voltar ao seu país, pois fugiram em razão de ameaças e violência. No caso do refugiado, os Estados, que os receberem devem assumir responsabilidade primordial sobre a segurança deles e precisarão oferecer medidas que garantam que seus direitos básicos sejam respeitados. Portanto, refugiados precisam de soluções a longo prazo.

“Ficávamos desesperados quando íamos visitar as outras famílias sírias que chegaram com a gente e percebíamos que viviam numa situação de extrema miséria. Faltava leite para as crianças, fraldas, comida e tudo que se possa imaginar. Fiquei tão chateada que abri uma página no face chamada “Esperança Refugiados Sírios”, e foi a partir daí que começaram a aparecer brasileiros oferendo doações.”

 Desde a criação da página no Facebook, a casa da família de Marah se converteu num verdadeiro depósito. É impossível não observar as olheiras da jovem grávida, que passa os dias organizando as doações e tentando dividi-las da melhor forma possível.

“Muitas vezes não conseguimos nem almoçar. Vem muita gente aqui e não tenho coragem de dizer que estou cansada demais. Sempre abro as portas e acolho as famílias sírias. Quando não são as famílias, passamos o dia recebendo pessoas que trazem doações. É impossível manter a casa em ordem, mas não podemos deixar de ajudar, pois sabemos que eles não têm condições de ir até São Paulo.”

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Segundo Marah, existem 35 famílias alojadas em Guarulhos, que não podem se deslocar até São Paulo para buscar as doações. Portanto, o único ponto central de coleta e distribuição seria a casa dela. Marah e sua família acabaram sacrificando suas rotinas e a paz do lar para ajudar seus conterrâneos.

“Meu filho nasce em dezembro. Tentei fazer ultrassom semana passada, mas não consegui, pois fiquei muitas horas esperando no hospital e desisti. Não tenho ideia como será meu parto.”, afirma a jovem.

Adaptação e Cultura

O processo de adaptação destas famílias parece ser algo difícil. A tradição síria não vê com bons olhos manifestações públicas de afeto, portanto, beijos em público são um verdadeiro escândalo para eles. Homossexualismo, segundo Marah, não existe na Síria.

“É muito estranho para nós encontrar um homem de mãos dadas com outro homem. O que mais nos preocupa é que nossos filhos vejam isso. Meu pai fica desesperado quando minha irmã vê pessoas se beijando e pergunta o que é isso. Nós explicamos que os brasileiros fazem assim, mas que nossa cultura não permite.”

Enquanto Marah falava sobre isso, sua irmã caçula, Shahed (9), sentou-se ao nosso lado, para exibir orgulhosa as fotos do casamento de Marah. Ao lado delas estava a mãe, Asmaa (45), que explicou que o casamento de Marah se dividiu em 4 momentos: 1) ela (a mãe) escolheu o noivo para Marah e ajustou tudo direto com ele e sua família; 2) as famílias promoveram o encontro dele com Marah e ela tirou o véu, exibindo a ele seus cabelos. 3) o segundo encontro do casal foi um tipo de noivado, também feito com toda a família presente, apenas para celebrar o casamento; e 4) o terceiro encontro já foi o casamento.

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Marah se diz muito feliz com a escolha da mãe e acrescenta:

“O que mais gostamos nos brasileiros é a capacidade que eles têm de respeitar todas as culturas. Ninguém aqui questiona meu véu. Os homens também não se importam quando eu me recuso a dar a mão para cumprimentar, pois isso é falta de respeito para nós.”

E agora Brasil?

 Os sírios possuem uma tradição muito rigorosa no convívio entre homens e mulheres. Eles não podem se cumprimentar com apertos de mãos e beijo no rosto é algo impensável. Quando indagada sobre a possibilidade de se criar uma colônia para que eles pudessem viver entre eles, Marah foi taxativa:

“Não queremos nos isolar, como acontece na Europa. Pelo que sabemos, os países Europeus, definiram os lugares onde os refugiados podem morar e controlam com rigor o que eles podem fazer. Não queremos isso. Queremos nos misturar, mas sem perder nossos costumes e mantendo nossa cultura de respeito às mulheres.”

Muito embora, Marah e sua família tenham plena liberdade para se reestabelecer, é fato que tudo fica muito difícil sem falar bem o idioma, enfrentando um processo de adaptação à cultura local (que é extremamente oposta a dos sírios) e o mais grave de todos os problemas: sem dinheiro! Quando indagada sobre todos estes entraves, Marah argumenta:

“Meu pai é um homem trabalhador, levou uma vida para construir sua fábrica, comprar nossa casa e pagar nossos estudos em Damasco. Ele sabe trabalhar e sabe negociar. Acredito que tudo seja uma questão de tempo. Se fizemos dinheiro na Síria, voltaremos a fazer isso aqui. Somos um povo trabalhador e queremos prosperar no Brasil.”

 Brasil sem rumo

A Europa anda desesperada com as atuais ondas migratórias. Embora exista um consenso europeu sobre os resgates no mar e o combate aos traficantes, eles ainda não chegaram a uma resposta para a fatídica pergunta: o que fazer com os que completam a viagem? Já o Brasil parece não ter feito a pergunta ainda.

Não vivemos na região mais pobre do planeta, mas estamos em um país com muitas desigualdades, numa sociedade violenta e sofremos com o centralismo do poder público, que fica engessado, sem conseguir agir com a rapidez necessária para coordenar o imenso fluxo de pessoas que chega diariamente.

“Acho engraçado ver que o governo aqui deixa as pessoas fazerem tudo que elas querem. Só depois que elas fizeram tudo errado, que o governo vai reclamar e tenta consertar. Dai eu me pergunto: por que não preveniu? por que não avisou logo que a pessoa começou a fazer a coisa errada? O povo precisa de orientação o tempo todo!”, diz Marah chateada.

Enquanto os países europeus estudam a criação de programas de trabalho temporário para migrantes e desenvolvem um plano de acomodação e adaptação para refugiados. O Brasil parece inerte recebendo milhares de pessoas sem rumo.

O que querem os refugiados?

Quando indagamos a família de Marah se eles teriam planos de ir para o interior ou outros Estados menos populosos (que São Paulo), Marah respondeu:

“Sabemos que em São Paulo tudo é mais caro, só que aqui temos emprego. Meu marido por exemplo que era um estudante de administração em Damasco, aqui conseguiu um emprego de cozinheiro. Não sei se conseguiríamos isso no interior. Além disso, alugar um apartamento ou casa  é muito difícil para nós. Não temos fiadores, nem dinheiro para um depósitos antecipado. Temos que viver na informalidade mesmo ou de favor!”

Segundo Marah e sua família, seria de extrema importância começar a desenvolver políticas públicas eficientes para acomodar os refugiados que já estão aqui e todos os outros que devem chegar num futuro próximo.

“Primeiro precisamos aprender a língua. Precisamos de aulas de português. Muitos de nós falam inglês bem, com isso já poderiam começar a trabalhar em lugares em que as pessoas falam inglês, mas precisamos que alguém faça essa ponte. A grande maioria dos sírios que consegue chegar ao Brasil são qualificados para o mercado de trabalho e poderiam ser aproveitados, se houvesse uma triagem de qualidades e aptidões. Precisamos dessa ajuda”

Políticas públicas para Refugiados

 

  • images[9]A porta de entrada: O aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, é uma das principais portas de entrada para solicitantes de refúgio no Brasil. Atualmente, o aeroporto conta com um pequeno espaço “escondido”, que presta atendimento aos estrangeiros solicitantes de refúgio que chegam no país. O problema é que muitos dos refugiados chegam sem falar uma única palavra e acabam sendo abordados por aproveitadores.
  • Triagem: Seria importante que assim que chegassem no país, os refugiados passassem por uma espécie de triagem, em que pudessem constar suas necessidades particulares, por exemplo: se é fluente em inglês, se cursou universidade, se trabalhava no campo ou no mar. A partir dessa triagem, o refugiado deveria ser direcionado a algum centro de acolhida.
  • Acolhida: Seria importante que o Brasil conseguisse inserir o refugiado no contexto nacional, aproveitando a oportunidade de aprender com eles também. Muitos dos que aqui chegam eram médicos, professores, músicos e artistas em seus países. Se houvesse uma triagem logo na chegada poderiam continuar a exercer suas funções de forma colaborativa com o governo nacional, o que permitiria um excelente intercâmbio e troca cultural ao país.
  • Mão-de-obra qualificada: é inegável o influxo de mão-de-obra qualificada dentro do contingente de sírios que chegam ao Brasil. É evidente que a primeira questão para acolhida destas pessoas é a causa humanitária, mas não se pode fechar os olhos para os benefícios econômicos que o Brasil poderia auferir com a chegada de mão-de-obra qualificada.
  • Moradias temporárias: o Governo de São Paulo investiu  no ano passado, em alguns abrigos especiais para refugiados. Contudo, são raros e, via de regra, o refugiado, nem chega a descobrir sua existência, por não falar a língua do país, ao chegar no aeroporto. Além disso, eles apenas podem permanecer 45 dias por lá, pois costumam ser apenas uma casa de passagem.
  • Moradias definitivas: Como a maioria dos refugiados concentram-se na capital de São Paulo, uma das cidades com custo de vida mais alto do Brasil, para eles é quase impossível alugar um imóvel, seja pelo preço, seja pela falta das garantias necessárias (fiadores ou depósito bancário). Com isso, corre-se um sério risco de refugiados em condições clandestinas e ilegais na cidade.

O Brasil se destaca no mundo por seus números recordes de refugiados. De 2010 para 2014 o número saltou de 566 concessões de refugio para 9, 2 mil. A tendência é que estes números continuem crescendo, e que cada vez mais nacionalidades apareçam. Em 2014, o Comitê Nacional para Refugiados contabilizava 8,3 mil refugiados de mais de 80 nacionalidades diferentes. Isso sem levar em conta os que aqui estão ilegais.

O problema bate a nossa porta e não podemos dar soluções simplistas, como fazem outros países. Negar a concessão de vistos aos refugiados não é uma opção para o Brasil, porém discutir os meios de acomodar tanta gente (que ainda está para chegar) e promover uma integração sustentável é urgente.

Também é preciso pensar na contrapartida e nas consequências disso a médio prazo. Assuntos como xenofobia  e projeto da Lei de Migração (PL 2516/15), com toda certeza devem ser pauta em muitas rodas de discussão. É preciso pensar nessa equação, que envolve tantas variáveis, valores desconhecidos, incógnita e quem sabe encontrar sua raiz. Como bem ensina a matemática, o desafio é encontrar afirmações que sejam verdadeiras para todos os valores.