Sobre a Dignidade da competição

Por Rafael Nogueira

A competição tem sido difamada como uma das grandes vilãs dos relacionamentos humanos. Lutar por algo ou por alguém contra alguém está ficando fora de moda. Aqueles que não gostam de competição defendem ruidosamente um tipo de coordenação pacífica e harmoniosa, dedicada a todas as esferas da vida.

E têm na ponta da língua a máxima “ninguém é melhor do que ninguém”. E esse pensamento vem ganhando espaço contra a competição tradicional. Comecemos pelo evidente. Ninguém aceitaria colocar o Faustão no lugar do Neymar na seleção brasileira de futebol. Não esqueci de que muita gente votou no Tiririca para deputado federal. Mas nesse caso a ideia da maioria dos envolvidos na palhaçada foi esculachar mesmo. Não esculachemos, pois, este raciocínio. frases face3 A competição é importante para a depuração e a apreciação dos valores. Competir é um verbo que indica a procura do melhor. O exemplo das seleções esportivas é eloquente, mas o mercado, a educação e a própria convivência cotidiana também são recheadas de exemplos. Como saber qual é o melhor produto se não se apresentarem à apreciação dos consumidores pela propaganda? Se não puderem ser experimentados e julgados?  Se, enfim, não forem postos uns contra os outros não é possível saber qual agradaria mais ao consumidor.  Só temos o nosso perfume favorito porque há várias empresas produtoras de perfume competindo para nos agradar.  Nesse sentido é interessante poder escolher, não é mesmo? Como saber qual é o melhor entre diversos elementos capazes de assumir uma mesma posição, como no caso de um emprego, de um cargo, de uma vaga numa universidade?  Para conseguir os empregos, temos de passar por processos seletivos que nos levam a buscar superar outros profissionais que almejam as mesmas posições. Competir não é o único verbo que nos faz buscar o melhor. Há muitos outros, tais como: aperfeiçoar, amar, ensinar, lapidar e daí por diante. Mas todos podem e devem coexistir em um mesmo ser humano. Ressalvados os casos naturais, parece-me que há uma diferença muito grande entre disputar algo com lealdade, contra alguém que sabe quais são as regras do jogo (e a elas aceita se submeter) e esmagar todos os que oferecem algum tipo de ameaça. Na educação, tanto a cooperação quanto a competição são importantes. Os alunos que compartilham seus conhecimentos aprendem melhor enquanto ajudam. Os mais egoístas prosperam de forma mais lenta, e deixam de aprender lições valiosas de generosidade e de humildade. Porém, competir é saudável. O ato de observar quem tira notas mais altas, quem aprende com mais facilidade, quem se expressa melhor, a fim de tentar igualar ou até superar essas qualidades, é uma competitividade benigna extremamente importante ao desenvolvimento da característica em questão. É claro que não se pode ignorar aqueles que se envolvem excessivamente com a atmosfera competitiva a ponto de permitirem que a audácia suicida, a trapaça, a cobiça, a inveja e a violência tomem forma em suas mentes e, depois, em suas condutas. Porém, isso ocorre mesmo porque se resolveu competir acima de todos os outros valores que qualquer ser humano também deve considerar. Assim fica fácil atribuir à competição a pecha de atividade malvada desse mundo capitalista e desumano. Mas a competição tem o seu lugar. Haverá quem sinta crueldade e frieza nessa descrição das coisas. Mas a crueldade começa pelo fato de que tanto eu quanto o distinto leitor somos espermatozóides vencedores e não posso fazer nada a respeito. Nem Rousseau, nem tampouco Marx. C’est la vie. Rafael Nogueira é  filósofo, advogado e professor de História, Filosofia e Sociologia.